O fim de um ciclo no maior banco digital

O Nubank anunciou oficialmente o fim do home office integral para seus funcionários. A partir de julho de 2026, a fintech adotará o modelo híbrido obrigatório, com dois dias presenciais por semana. A decisão, comunicada internamente pelo CEO David Vélez em novembro de 2025, marca o encerramento de um ciclo iniciado na pandemia de Covid-19, quando o banco se tornou símbolo do trabalho remoto no Brasil. Em janeiro de 2027, a exigência sobe para três dias no escritório.

O anúncio coloca o Nubank na contramão de parte significativa dos profissionais brasileiros. Pesquisa da Robert Half divulgada em janeiro de 2026 revela que 70% dos trabalhadores aceitariam voltar ao presencial integral por um salário maior — mas isso não significa que a preferência pelo home office tenha diminuído. Pelo contrário: o dado mostra que a flexibilidade tem preço, e as empresas que a eliminam unilateralmente podem enfrentar resistência.

O que muda para os funcionários do Nubank a partir de julho?

A nova política atinge todas as operações do banco no Brasil e na América Latina. Os escritórios de São Paulo, Cidade do México e Bogotá terão suas estruturas ampliadas, e novas unidades serão abertas em Campinas, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Washington, Miami e Palo Alto. A empresa informou que oferecerá suporte para realocação de funcionários que precisarem se mudar para perto desses centros.

Ao mesmo tempo, o Nubank admite exceções. Funções operacionais como ouvidoria e aquisição de talentos permanecerão remotas. Funcionários poderão solicitar adiamento do retorno presencial com base em critérios como senioridade, desempenho, distância do escritório e condições médicas. David Vélez, no entanto, deixou claro que essas exceções serão raras. A mensagem interna foi enfática: o novo modelo prioriza a convivência presencial como padrão. Veja como fica o plano de investimento do Nubank em escritórios.

O CEO justificou a decisão com argumentos de cultura organizacional. "Cultura é o nosso superpoder; estar juntos é como a fortalecemos", afirmou Vélez. Para ele, o home office privilegia a conveniência individual, mas prejudica a coordenação e a eficiência coletivas. Quando as equipes compartilham o mesmo espaço, problemas são resolvidos mais rapidamente e o feedback se torna mais humano, segundo o executivo.

Por que as empresas estão revertendo o home office agora?

A decisão do Nubank não é isolada. Dados da LiveCareer mostram que 80% das empresas brasileiras pretendem reduzir ou abandonar o home office, mesmo diante da preferência majoritária dos trabalhadores. O paradoxo revela uma tensão estrutural: enquanto 94% dos profissionais afirmam que o trabalho remoto melhorou sua qualidade de vida, as lideranças apontam perda de colaboração e dificuldade de gestão.

O movimento de retorno ao presencial encontra respaldo em parte da academia, mas não sem controvérsias. Estudo da McKinsey Global Institute indica que 20% a 25% da força de trabalho em economias desenvolvidas pode trabalhar remotamente sem perda de produtividade — o que significa que 75% a 80% não pode. No Brasil, estima-se que 22,7% das ocupações tenham potencial remoto, algo como 20 milhões de profissionais.

"Work from anywhere is not the same as work from home. It's a remote-work and distributed-work arrangement that lets individuals choose where they want to live. For organizations, it expands their labor market access. Instead of looking for talent locally in a city, now the whole country becomes the accessible labor market." — Prithwiraj Choudhury, Professor Associado, Harvard Business School [citation:3]

A frase do professor de Harvard resume o argumento que mantém o trabalho remoto como tendência de longo prazo, apesar das reversões conjunturais. Para empresas como Airbnb, Atlassian e Nvidia, o modelo "work from anywhere" é visto como vantagem competitiva para atrair talentos. Já para bancos e fintechs como o Nubank, o presencial segue associado à ideia de controle e construção cultural.

O que o profissional de home office pode fazer diante desse cenário?

Diante do movimento de reversão, o profissional que valoriza a flexibilidade tem caminhos claros. O primeiro é negociar. Pesquisas mostram que a produtividade no home office é igual ou superior à do presencial para 88% dos trabalhadores — levar dados concretos para a conversa com o gestor aumenta as chances de manter o modelo remoto. O segundo é se preparar para o mercado internacional. Países como Portugal, Emirados Árabes e Nova Zelândia oferecem vistos específicos para nômades digitais. O terceiro é investir em qualificação para áreas com alta demanda remota, como tecnologia, finanças e marketing digital. Saiba como conseguir trabalho remoto internacional.

Ainda assim, o fator financeiro segue determinante. O Guia Salarial 2026 da Robert Half não deixa margem para dúvidas: 70% dos brasileiros aceitariam voltar ao escritório em troca de um salário maior. A flexibilidade tem preço, e a disposição de abrir mão dela varia conforme o momento de carreira e as necessidades financeiras de cada um.

70% dos profissionais brasileiros aceitariam retornar ao trabalho presencial integral mediante remuneração mais alta — Fonte: Robert Half Guia Salarial 2026 [citation:2]

O cenário para 2026 e 2027 será de convivência entre modelos. O Nubank lidera a virada para o híbrido entre as grandes empresas de tecnologia brasileiras, mas não há sinal de que o home office vá desaparecer. Pelo contrário: a flexibilidade se consolidou como critério de escolha de emprego para a maioria dos profissionais, e as empresas que a eliminam correm o risco de perder talentos para concorrentes mais adaptáveis.

A reversão do home office integral no Nubank reflete uma tendência mais ampla de retorno ao presencial no setor financeiro. No entanto, os dados mostram que os profissionais seguem valorizando a flexibilidade — e até 70% dizem que aceitariam trocar o home office por um salário maior. O equilíbrio entre o que empresas querem e o que trabalhadores demandam ainda está longe de ser encontrado.