Virada no modelo de trabalho
O Nubank anunciou oficialmente o fim do modelo home office integral a partir de julho de 2026. O banco digital, que tinha uma das políticas mais flexíveis do setor financeiro com apenas uma semana presencial exigida por trimestre, passará a exigir dois dias de trabalho presencial por semana para seus quase 9,5 mil colaboradores, com previsão de três dias em 2027 .
A decisão foi comunicada em carta aos funcionários pelo CEO global do Nubank, David Vélez, que justificou a mudança com base nos chamados 'custos invisíveis' do home office. Segundo ele, embora o modelo remoto tenha benefícios, ele prejudica aspectos fundamentais como a cultura organizacional, a inovação e a comunicação entre equipes .
Quais são os 'custos invisíveis' do home office na visão do Nubank?
David Vélez detalhou em sua mensagem aos colaboradores três pontos principais que motivaram a mudança. O primeiro é a cultura organizacional: 'Cultura não é um documento ou um conjunto de valores em uma parede — é um sistema vivo de hábitos, energia e confiança construído através da conexão humana diária. Em um mundo prioritariamente remoto, essa energia se esvai' .
O segundo ponto citado é a inovação. Segundo o CEO, pesquisas sobre o tema mostram que 'oportunidades presenciais geram mais ideias, de maior qualidade e interagem mais rapidamente. A criatividade não floresce em chamadas agendadas; ela emerge de interações não planejadas' . Ele observa que, entre as empresas mais inovadoras do mundo, são raras as que usam exclusivamente o trabalho remoto.
O terceiro fator é a comunicação. 'Sinais não verbais desaparecem, mal-entendidos se multiplicam e a multitarefa na tela reduz o foco', afirmou Vélez, em trecho da carta citado pela imprensa especializada . A empresa afirma que mais tempo presencial é um 'requisito para a inovação'.
Como a empresa vai viabilizar o retorno presencial para 9,5 mil funcionários?
Para acomodar o retorno gradual, o Nubank anunciou a expansão da infraestrutura física. Os escritórios em São Paulo serão ampliados, e novas unidades serão criadas em Campinas, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Buenos Aires (Argentina) e nas cidades americanas de Washington D.C., Miami e Palo Alto .
A empresa também informou que oferecerá auxílio-realocação para funcionários elegíveis que precisarem se mudar para mais perto dos escritórios. Haverá ainda um período de transição de oito meses, com possibilidade de exceções individuais para casos específicos, avaliadas com base em critérios como senioridade, desempenho, distância do escritório e condições médicas. David Vélez ressaltou, no entanto, que essas exceções serão raras e limitadas .
O movimento do Nubank reflete uma tendência no mercado brasileiro?
A decisão do banco digital não é um caso isolado. Dados de 2025 e 2026 mostram um movimento consistente de empresas brasileiras reduzindo ou eliminando políticas de home office. Segundo levantamento do GPTW citado em pesquisa da LiveCareer, 51% das organizações brasileiras já operam totalmente no modelo presencial. Outras 41% adotam formatos híbridos, e apenas 9% mantêm equipes completamente remotas .
Além do Nubank, a fabricante de aeronaves Embraer anunciou em 2025 o fim do home office para seus 18 mil funcionários no Brasil a partir de janeiro de 2026, com retomada do presencial em três dias da semana e possibilidade de dois dias remotos . O Sindicato dos Metalúrgicos ingressou com ação na Justiça contestando a mudança unilateral.
Esse movimento de reincorporação presencial ocorre em um momento de tensão no mercado, já que pesquisas mostram que 65% dos profissionais trocariam de emprego para manter o home office, e 94% relatam melhora na qualidade de vida com o modelo remoto .
'Sabemos que esta decisão será bem-recebida por muitos de vocês. Para outros, irá gerar conturbação — especialmente para aqueles que moram longe de nossos escritórios, ou para aqueles que ingressaram no Nubank por causa da flexibilidade do trabalho remoto. Entendemos o peso desta mudança e não a tomamos levianamente' — David Vélez, CEO global do Nubank
O que esperar para quem busca trabalho remoto no setor financeiro?
A transição do Nubank sinaliza uma mudança importante para o setor financeiro, que vinha sendo um dos mais abertos ao trabalho remoto. Até o anúncio, o banco digital era frequentemente citado como referência de política flexível, atraindo talentos de todo o país justamente por esse diferencial.
Para profissionais que buscam posições home office no setor bancário e financeiro em 2026, é recomendável, segundo especialistas consultados por portais de carreira, priorizar oportunidades em instituições menores, fintechs ainda consolidadas no modelo remoto ou empresas com capital 100% digital. Outra alternativa são as vagas internacionais: profissionais de tecnologia, análise de dados e atendimento bilíngue podem buscar contratação por bancos estrangeiros que pagam em dólar, como mostram levantamentos de 2026 .
O CEO da Impulso, Sylvestre Mergulhão, aponta em análise sobre tendências de trabalho remoto para 2026 que 'as empresas terão que decidir se constroem culturas baseadas em confiança e resultados, ou se retornam para modelos de controle que já se provaram menos eficazes' . Essa escolha definirá quais organizações conseguirão reter os profissionais mais qualificados num mercado onde a flexibilidade continua sendo prioridade para a maioria.